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Pior Que Pão D'Alho

Porque toda a alarvidade proferida por este jovem, é

Porque toda a alarvidade proferida por este jovem, é

Pior Que Pão D'Alho

29
Mar18

Fragmentando Fleecy Rui

Tomás Matos

            Ora alvíssaras. Sei que cheguei tarde à festa, mas estamos no infame período das limpezas pré-Páscoa e nem a Universidade me safou de ajudar a preparar a casa para a chegada do Senhor. E do rapaz da sineta. E também usei como saudação “alvíssaras”, expressão do Frei Luís de Sousa, pelo que vivo no século XVI e os blogues não existem. Adiante, e aproveitando o vocábulo “sineta” como ponte, escrevo-vos hoje, humildes pão-d’alho-ers, sobre as sinetas indignativas que soaram na semana transata dadas as declarações de Rui Veloso no Maluco Beleza.

            A música, confessa aqui o menino, é algo que me apraz. Na qualidade de ouvinte “renascentista”, que varia de Gson a Vivaldi, de Hans Zimmer a Nina Kraviz, ou de Two Door Cinema Club a – tinha de referir, dadas as circunstâncias - Swedish House Mafia, só posso achar ridícula a indignação das pessoas às declarações daquele que é, para mim e mais uns quantos, o suprassumo da música portuguesa. Isto porque, caríssimo leitor, sou a favor de uma doutrina que tanto nos custou a ter chamada “liberdade de expressão”.

            Se todos fôssemos coca-bichinhos como a malta que segue à risca o já exagerado e “fora da validade” politicamente correto, era eu o indivíduo que mais caía em cima de Rui Veloso – traduzido à letra Fleecy Rui, dando-lhe nome de rap. Enquanto apaixonado fã de música eletrónica, ficaria ofendido quando o meu conterrâneo nortenho disse em entrevista à Sic Radical há 2 anos que os festivais com DJ’s “são de qualidade duvidosa” e “só servem para fazer monte”. E enquanto fã de hip-hop/rap, paixão menos forte que a anterior, mas de uma avidez considerável, ui! Ficava logo de “cabeça no ar” (referência linda).

            O que pretendo dizer sem muitos rodeios é que as declarações “chocantes” de Veloso, que abordaram o hip-hop, Salvador Sobral, e a Eurovisão, não são para mim chocantes em nada. Não sei se é por também ser das margens do Douro, onde as coisas tradicionalmente se dizem “sem filtro na linguística” como diz Mundo Segundo, mas achei que Rui Veloso, e Unas até o apoiou no raciocínio, tem razão em algumas coisas. Vejamos: disse que o rap representava coisas que o próprio abomina, nomeadamente a ostentação e a violência, esta última contra as mulheres também. Segundo a conceituada revista Billboard, as 2 melhores músicas de rap de 2017 são “XO Tour Llif3” de Lil Uzi Vert e “Bad and Boujee” dos Migos (com participação do mesmo Lil Uzi Vert também). Basta fazer uma visita ao site Genius e tirar conclusões. A primeira fala de como Lil Uzi, cujo nome por si só é uma alusão a um elemento bélico, ultrapassa o fim de uma relação com a ajuda de “Xanny” (diminutivo de Xanax) e outros “serviços” como as roupas que manda vir do estrangeiro e as notas que atira a strippers. A segunda aborda ter relações com mulheres e fazer dinheiro – o termo “boujee”, presente no título da faixa, é calão materialista para “burguesia”. Logo no terceiro verso da mesma, o rapper Offset, membro dos Migos, diz “Fuckin’ on your bitch, she’s a thot”, numa lírica bonita e repleta de respeito pelo sexo oposto, sendo que “thot” é acrónimo para “that hoe over there”, que traduzido dá essa designação linda de “aquela puta ali”. Na língua de Camões, este complexo verso seria, sendo assim, “Estou a foder a tua cabra. Ela é uma «apa»”, o que soa maravilhoso. Não acham que esta pequena pesquisa dá um bocadinho de razão ao músico português? E isto numa altura em que o grande Lil Pump, autor do famoso e literário tema “Gucci Gang”, acaba de ser confirmado no MEO Sudoeste.

            O cantor portuense também fez faísca ao, a propósito de Salvador Sobral, dizer que “ficar-se famoso por uma música é terrível”. Ao ver toda a entrevista ao Maluco, ficamos a saber que ambos são amigos de longa data, mas os media portugueses, sempre atentos, não perderam tempo a botar a lenha numa fogueira que nem existe. A revista VIP até noticiou que Veloso “arrasou” Sobral. Credo! Que arraso. Arraso desde já aqui os Europe por toda a gente só conhecer a “Final Countdown”.

            E por fim, a Eurovisão, que o artista disse sem filtros ser “uma pimbalhice do caralho”. Ora, estas declarações, mesmo inseridas num contexto mais “conversa de café” do Maluco Beleza, são as que mais discordo, mas respeito, de toda a situação. Como escrevi acima, o vernáculo não me é estranho e não me faz comichão. A minha discordância reside no facto do próprio Veloso (e Carlos Tê) ter participado em 1986 no Festival da Canção, com o tema “Dessas Juras Que Se Fazem” interpretado por Né Ladeira, que mais tarde resultou no épico “Jura”, faixa que sempre associarei à muito educativa novela da SIC que animou a puberdade de toda a malta de ‘98. Mas mesmo assim, não terá Fleecy novamente alguma razãozinha dado que, por exemplo e como o próprio afirmou na entrevista, só “Amar Pelos Dois” foi despida de foguetes, luzes, e coreografias de Zumba na última edição da Eurovisão? E não será também um argumento plausível a “tese” de que a música não é uma competição que Rui Veloso invoca? Tente-se “amar pelos dois” lados e perceberem-se as coisas. Não vejamos só o lado lunar.

            E é com mais uma referência à discografia “velôzica” que entro no fim deste longo e chato ensaio pior que pão d’alho. Não concordo com o artista português a 100%. Nem a 50 sequer, mas simplesmente não vou muito ao encontro da cultura de linchamento online de hoje em dia, ao passo que não há necessidade nenhuma de ridicularizar um dos melhores cantores/intérpretes lusos de sempre por ele ter dito apenas a sua opinião. Um abraço deste que tanto vos quer (fogo, mais uma).

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Novo texto a cada quarta-feira. Para não chatear muito o povo com publicidades enfadonhas, e para dar aquele incentivo (ou não) às 3 pessoas que leem isto. Se o acontecimento for mesmo bombástico aqui o menino pode lançar logo aquela bojarda imediata em qualquer dia da semana. Pode também não ser regular a tal periodicidade, uma vez que o rapazola é universitário e atravessa períodos conturbados da sua existência.